{"id":8245,"date":"2020-08-25T15:31:17","date_gmt":"2020-08-25T18:31:17","guid":{"rendered":"https:\/\/sergiomercurio.com.ar\/web\/?p=8245"},"modified":"2024-01-14T16:00:57","modified_gmt":"2024-01-14T19:00:57","slug":"insignificante-port","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sergiomercurio.com.ar\/web\/insignificante-port\/","title":{"rendered":"Insignificante (port)"},"content":{"rendered":"<p class=\"western\" lang=\"es-ES-u-co-trad\" align=\"right\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"pt-BR\">Por Sergio Mercurio<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"es-ES-u-co-trad\" align=\"right\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"pt-BR\">Tradu\u00e7\u00e3o: Maur\u00edcio Decker<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p lang=\"es-ES-u-co-trad\" align=\"right\"><a href=\"https:\/\/sergiomercurio.com.ar\/web\/insignificante\/michelangelos_pieta_saint_peters_basilica_vatican_city\/#main\" rel=\"attachment wp-att-8011\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-8011 no-lazyload\" src=\"https:\/\/sergiomercurio.com.ar\/web\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Michelangelos_Piet\u00e0_Saint_Peters_Basilica_Vatican_City-600x554.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"554\" srcset=\"https:\/\/sergiomercurio.com.ar\/web\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Michelangelos_Piet\u00e0_Saint_Peters_Basilica_Vatican_City-600x554.jpg 600w, https:\/\/sergiomercurio.com.ar\/web\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Michelangelos_Piet\u00e0_Saint_Peters_Basilica_Vatican_City-1024x945.jpg 1024w, https:\/\/sergiomercurio.com.ar\/web\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Michelangelos_Piet\u00e0_Saint_Peters_Basilica_Vatican_City-768x709.jpg 768w, https:\/\/sergiomercurio.com.ar\/web\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Michelangelos_Piet\u00e0_Saint_Peters_Basilica_Vatican_City.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"es-ES-u-co-trad\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"pt-BR\">Dona Petrona e minha m\u00e3e descobriram no mesmo dia que estavam gr\u00e1vidas. Contaram uma a outra e sorriram no \u00abeu tamb\u00e9m\u00bb. Petrona estava casada com Don Burgos, carpinteiro durante o dia, um bom homem durante o dia. Minha m\u00e3e era a filha de um carpinteiro manso, sempre. Ambas viviam em uma casa na beira da vala, naquela parte de um bairro onde n\u00e3o se sabe se a pobreza est\u00e1 entrando ou saindo. Ambas j\u00e1 tinham um filho. Coincid\u00eancias. Depois de lutar com o motor e remover a carca\u00e7a de lata, a graxa irrompia, denunciando o esfor\u00e7o da m\u00e1quina para buscar a \u00e1gua, e, em seguida, balde na m\u00e3o, minha m\u00e3e cruzava para aproveitar a cisterna de Dona Petrona. O pasto na entrada de sua casa era a garagem onde meu pai guardava o Chevrolet. Dona Petrona tinha coisas que nos faltavam. Mas em nossa casa come\u00e7ava a sobrar algo. Quando meu irm\u00e3o estava para nascer, minha m\u00e3e deduziu o p\u00e9riplo que significaria me levar para o jardim l\u00e1 longe, e os do jardim propuseram que, se mais um menino viesse, eles viriam nos buscar na lama. O que nos sobrava serviu para que uma camionete testasse a tra\u00e7\u00e3o de suas rodas para que Jorgito fosse ao jardim comigo. Eu e Jorgito \u00e9ramos parecidos, n\u00e3o t\u00ednhamos nada a dizer. Gostamos de tr\u00eas coisas: brincar sozinhos, olhando o sol refletido na vala, e n\u00e3o falar nada. Entre a casa dele e a minha havia um detalhe insignificante: terra e vala. A casa dele era de madeira, a minha era de cimento, mas eram iguais, a dele dava para o pasto, a minha para o p\u00e1tio maior. Diferen\u00e7as insignificantes. Por isso, sentados, com\u00edamos bolinhos fritos, enquanto minha m\u00e3e e a dele acariciavam a barriga que ia explodir ou desinflar. Quando se rompeu a bolsa de minha m\u00e3e, Dona Petrona veio com dois baldes de \u00e1gua para ajud\u00e1-la. \u00c9 in\u00fatil tentar supor se esse esfor\u00e7o teve consequ\u00eancias na gravidez dela. Meu irm\u00e3o nasceu 8 dias antes de Gabriela, irm\u00e3 de Jorgito. A diferen\u00e7a entre Jorgito e Gabriela era muito semelhante \u00e0 diferen\u00e7a entre eu e meu irm\u00e3o. Para n\u00f3s dois apareceu um estranho na fam\u00edlia. Algu\u00e9m que via o mundo de outro modo. Todo dia eu me tornava cada vez mais invis\u00edvel e meu irm\u00e3o aparecia em todos os lugares. Jorgito continuava aprendendo a seriedade e Gabriela havia nascido para rir. Dona Petrona passaria os anos com Gabriela nos bra\u00e7os, Gabriela s\u00f3 sabia rir, nunca aprenderia a sentar ou andar, nunca aprenderia a pegar a comida com as m\u00e3os e lev\u00e1-la \u00e0 boca. Algo insignificante, um cromossomo extra. Para mim era comum entrar na casa de Jorgito e parar s\u00e9rio, em frente \u00e0 pequena cama onde Gabriela estava esparramada olhando de soslaio para o mundo e rindo. Tamb\u00e9m era comum a fam\u00edlia vir \u00e0 minha casa com Dona Petrona carregando Gabriela nos bra\u00e7os, durante todo o tempo em que durasse a reuni\u00e3o. Dona Petrona procurava meu irm\u00e3o em minha casa, a quem apelidara de \u00abo cavalheirinho\u00bb. A rela\u00e7\u00e3o entre as fam\u00edlias foi constante, at\u00e9 que o que nos sobrava foi suficiente para deixar a lama para sempre. Acabamos em uma casa que, como a anterior, era de cimento, mas tinha telhado e vizinhos que se podiam ver sem vala e lama no meio. O novo bairro trouxe novas rela\u00e7\u00f5es. Era um bairro onde as crian\u00e7as tamb\u00e9m entravam nas casas sempre abertas dos demais. Uma ou outra tarde de s\u00e1bado, voltamos ao barro para visitar os carpinteiros. Eu parava ao lado de Jorge sem dizer nada. Dona Petrona olhava para o cavalheirinho e sorria. Um dos \u00faltimos anivers\u00e1rios que comemoramos naquele ano na nova casa foi de meu irm\u00e3o. Foi um daqueles em que as crian\u00e7as ainda s\u00e3o t\u00e3o pequenas que os que se re\u00fanem s\u00e3o os amigos dos pais. Est\u00e1vamos todos na sala conversando animadamente com os amigos, que riam como riem aqueles a quem lhes sobra, quando a campainha tocou. Minha m\u00e3e abriu a porta e cumprimentou a amiga. A cena foi insignificante. Quando Dona Petrona cruzou o umbral com Gabriela sorridente em seus bra\u00e7os, ningu\u00e9m pensou na <\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"pt-BR\"><i>Piet\u00e1<\/i><\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"pt-BR\">, de Michelangelo. Eu estava sentado quieto quando vi que, atr\u00e1s do umbral, Jorgito estava parado olhando para o umbigo. Enquanto o sil\u00eancio abafafou a festa, Dona Petrona encontrou um assento para que Gabriela n\u00e3o desvanecesse, para, ent\u00e3o sim, tocar as bochechas do \u00abcavalheirinho\u00bb e beij\u00e1-lo. Minha m\u00e3e me chamou a aten\u00e7\u00e3o com um <\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"pt-BR\"><i>psiu<\/i><\/span><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"pt-BR\"> e eu fiquei parado na frente de Jorgito at\u00e9 que entendeu que podia entrar. Depois me detive diante de Dona Petrona e da menina. Gabriela estava igualmente sorridente, mas usava um vestido branco e, em seu ombro, um pano novo para secar a baba. Aquela foi a primeira vez que me lembro que pensei: por que essa menina olha para o mundo e ri? Por que todos que riam deixaram de rir? O que essa menina est\u00e1 vendo que ningu\u00e9m v\u00ea, o que sente?<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"es-ES-u-co-trad\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"pt-BR\">Foi a \u00faltima vez que Dona Petrona pisou em minha casa. Nunca me permiti lembrar disso, t\u00e3o insignificante. Somente agora que o insignificante nos aturdiu, nos deixou trancados com o qu\u00ea e com aqueles que podemos.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\" lang=\"es-ES-u-co-trad\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"pt-BR\">*Este texto foi publicado na revista Sudestada, de junho 2020 &nbsp;quando chegou a pandemia<\/span><\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Sergio Mercurio Tradu\u00e7\u00e3o: Maur\u00edcio Decker Dona Petrona e minha m\u00e3e descobriram no mesmo dia que estavam gr\u00e1vidas. Contaram uma a outra e sorriram no \u00abeu tamb\u00e9m\u00bb. Petrona estava casada com Don Burgos, carpinteiro durante o dia, um bom homem durante o dia. Minha m\u00e3e era a filha de um carpinteiro manso, sempre. 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