Escritor, cineasta, actor, director, formador

A respeito de «Un lugar en el Mundo», de Aristarain

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Por Sergio Mercurio

Tradução: Maurício Decker

Faz 28 anos que venho pensando nisso. Me chama a atenção o silêncio. Ontem vi pela terceira ou quarta vez o filme de Adolfo Aristarain «Un lugar en el Mundo», queria voltar a ver a cena que queima a lã. Queria saber o que penso a respeito. E a cena me deixou no mesmo lugar de há 30 anos. Desolado. Não sei o que penso. No entanto, eu hoje eu poderia buscar refúgio na filosofia e desde a noite passada eu o tenho procurado. A queima da lã é fruto de uma complexa teia de pensamentos sobre a ética e a moral de um homem que se considera parte de um todo que ele primeiro deseja salvar e finalmente decide arruinar. Só para chegar a um ponto, esclareço que o filme conta a história de uma família que, depois de se exilar na Espanha por causa da ditadura, se refugia no vale do Rio Bermejo. Para aqueles de nós que tinham algumas imagens deste país, identificamos que eles foram para Merlo, em San Luis, algo que meu avô sempre quis. A família do enredo é composta por Mario, que, depois de ter sido professor na UBA, escolhe ser professor rural lá; a mãe, que é a médica da cidade; e, fechando a família, Ernesto, que é o que conta a história, um menino de 11 anos. Parece-me que, se não é o melhor filme de Aristarain, bate na trave, se não é um dos melhores filmes argentinos da história, penso defendê-lo até os dentes. De fato, isso é um pouco o assunto que me perturba. O fato de não haver meias medidas para lidar com uma questão tão crucial. O fato de não procurar agradar. Mario agrupou os pequenos produtores de lã. O cara que golpeia a comunidade se chama Zé Zanabria ou algo assim, e como tem dinheiro guardado, ele vai sacaneando todo mundo até que Mario os organiza e quebra o feudo. No momento em que o filme começa, Mario os reúne e tenta covencê-los que é preciso aguentar juntos, para que o preço da lã melhore, porque estão tentando extorqui-los sabendo que não têm lastro e querem comprar a lã por uma merreca. O decorrer da história nos permite ver um monte de relatos intrincados, e muito pouco maniqueísta, com diálogos memoráveis ​​e uma atuação muito poderosa de todo o elenco, onde o cerne da questão é que os espanhóis preparam o terreno para construir uma represa no vale, para que o caudilho local compre a terra dos moradores e depois recupere o dobro com a venda aos espanhóis. Zé Zanabria, Zé Zanata ou Zé Mané, está perfurando o tecido social, chamando os cooperativistas um a um e comprando suas terras, até Mario descobrir, tarde demais. Mas não apenas toma conhecimento tarde. Chega a uma reunião em que os membros da cooperativa querem convencê-lo a não aguentar mais e vender a lã. Quando eles votam, Mario percebe a verdade, todo mundo já a vendeu. A reunião é uma pantomima. Nada pode ser pior. Especialmente para aqueles que assistem ao filme, porque vemos que Mario não só não pôde ver que os cooperativistas estavam dando as costas para ele, como não pode ver como a esposa dele olha para o geólogo espanhol. Ou seja, Mario não pode ver um monte de coisas. O que acreditava ver o futuro não vê o presente. Naquela noite, diante da chegada da desolação, em meio à chuva, Mario monta seu cavalo e segue para o depósito. Seu filho Ernesto o segue para ver uma das cenas mais perturbadoras que eu já vi no cinema em toda a minha vida. Ernesto, junto à freira da vila, vê o pai que, com uma tocha, está incendiando o depósito, onde toda a lã da cooperativa que acaba de ser vendida está ardendo. A cena é espantosa. Mario joga a tocha, refaz os passos, senta-se ao lado do filho e diz «você entenderá». Um silêncio mais tarde acrescentará «agora voltaram a ficar sem nada». Esse é o momento que me perturba, essa ação. Já ouvimos a frase «queimar os navios», aquela expressão que indica que não há retorno, que não há como considerar determinadas variáveis. O que me parece corajoso em relação à Aristarain é a ousadia de narrar esse evento de uma maneira totalmente desprovida de moral. Eu a vi novamente ontem e volto a ficar igual. A sensação é semelhante à que se sente quando em «La Patagonia Rebelde» Soto fala com o anarquista alemão. Lembremos que o alemão escolhe levar um tiro porque esse é o voto da assembleia, então Soto escolhe viver e fugir. Quem fez a coisa certa? Pode-se concluir que os dois agiram adequadamente. Mas no caso do filme Aristarain, não é tão fácil. No caso de «Un lugar en el Mundo», a desolação em que o espectador se encontra é abismal. Eu pensava que 20 anos depois eu teria uma opinião definitiva sobre isso, mas não é assim. Alguns anos atrás, em uma reunião de filósofos espinozistas no Chile, ouvi uma apresentação de una filósofa patagônica que me fez lembrar daquela cena e tratei de comentá-la para que ela pudesse me dar sua opinião, mas não consegui encontrá-la. Ontem, quando passava a cena, também senti a sensação de ter vivido essa e outras épocas, mas não me lembro de nenhuma. No ato de Mario está o impulso irreprimível de quem se sente traído. Talvez seja essa a natureza do cenário, quando os cooperativistas traem Mario, Mario os trai. Só me lembro de um ato semelhante que nós, argentinos, experimentamos, mas ao contrário. Alfonsin fez isso; para uns, paladino da democracia, ele foi perturbado por ataques militares em diferentes quartéis do país; depois, sem seu pedido, as pessoas, que no filme são os cooperativistas de lã, invadiram a Plaza de Mayo para oferecer apoio incondicional ao presidente, para dizer que estavam com ele e que ele poderia enfrentar os militares sabendo que tinha esse apoio. Alfonsín então executou uma das traições mais exemplares da história; ele subiu na casa do governo para pedir a todos que voltassem para suas casas, pois ele estava lidando com essa questão com heróis das Malvinas. O que aconteceu na realidade é o oposto do filme. Eu tinha 20 anos quando isso aconteceu no país e detesto esse presidente desde aquele momento. É claro que a idade me permite ver esse evento de maneiras diferentes e posso até vislumbrar que talvez com essa atitude ele tenha evitado um massacre. No filme acontece o contrário, as pessoas traem o seu representante e ele, sem hesitação, queima tudo para começar do zero. A priori, é inevitável pensar que tanto o que é dito no filme quanto o que fez o radical são coisas inapropriadas. E é inevitável pensar que não havia solução melhor para a grande maioria nos dois casos. Pelo menos eu acho isso. No caso de Alfonsín, a raiva dura, no caso do filme, sinto-me desafiado por uma história magnífica e isso me obriga a refletir e confirmar que a vida real é impensável, inédita, complicada, as decisões sempre serão difíceis e que a tribo daqueles que têm respostas para cada momento da história são os seres que cada vez mais parecem mais, mas mais, estranhos. É aí que me vem um profundo agradecimento. Passei quase 20 anos com uma questão filosófica em minha mente, por isso sou grato a Aristarain, por uma obra impecável e pela coragem de contar isso com menos de 10 anos de democracia. Alguém pode argumentar que eu não consegui levantar ou resolver nada. Em resposta, lembro-me de uma cena do filme, que é quando Mario conta ao filho que, por mais que tenha fracassado, sua vida continua e que ele e sua mãe devem migrar para Buenos Aires. Então o filho, rapidamente, desde seus onze anos, afirma que não quer sair de lá. É aqui que o cinema começa, aquele ator enorme que era Federico Luppi, faz um dos silêncios mais fantásticos do cinema argentino, pode ser que tenha movido as pálpebras, mas para todos nós é inevitável saber que ele está pensando em milhões de coisas e, embora pareça que lhes vão aguar os olhos, com uma ternura que apenas um pai sem resposta tem para um filho que está desolado ante o porvir, porque sabe o que quer, mas não pode escolher, esse ator presenteia a esse pai a atitude de um homem desolado, sem capacidade de proteção, sem respostas, um pai que vê seu filho pela primeira vez como um igual e silenciosamente deixa escapar um «eu sei», que quer dizer um monte de outras coisas impronunciáveis, mas que enchem nossos corações. Saberemos depois que o coração do professor rural explodirá e que a migração de mãe e filho será inevitável. A história, eu disse no começo, é a de um garoto que já jovem volta e vai ao cemitério falar com seu pai e fazer uma das perguntas que qualquer ser humano gostaria que um pai nos ajudasse a responder e que consiste em saber como alguém pode encontrar seu lugar no mundo. Encontrar nosso lugar. Não sei até que ponto a expressão «meu lugar no mundo» era popular no início dos anos 90, mas a partir desse filme ela se tornou parte do meu universo interior. De fato, dali vaguei pela América por mais de uma dezena de anos, procurei e encontrei meu lugar no mundo várias vezes. Muitas vezes eles eram lugares físicos, mas um dia o invisível começou a fazer parte da minha vida e finalmente se estabeleceu sem dúvida. Hoje estou lá e agradeço a esse filme pela motivação memorável. Meu lugar no mundo é aqui, por exemplo, nessas letras.

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